segunda-feira, 28 de março de 2016

O meu amigo marco




Já há algum tempo que tenho nos projectos engavetados, enfiados em pastas ou, neste caso, nos directórios do meu computador, um projecto fotográfico em que nada mais pretendo do que ilustrar fotográficamente os marcos do correio que ainda existem na Cidade do Porto. Nada mais que isso, coisa simples portanto, polvilhado talvez umas linhas a fazer lembrar uma legenda do local ou assim.

Começo a escrever e o que me veio à ideia logo, de imediato, foi algo que julgava esquecido , porque se calhar não tinha tido precisão de me lembrar.
Dos primeiros marcos do correio, se não mesmo  o primeiro, que me lembro de ter contacto, quiçá iniciático, e que foi com o marco do correio que existia ali mais ou menos ao fundo da minha rua, já na Estrada da Circunvalação (EN12), junto ao final da Rua de Azevedo, onde havia uma das casas de fiscalização (para cobrança de impostos municipais, no caso a de Campanhã ).
O meu pai, um viajante de profissão, recolhia em gordos inchados e ao mesmo tempo diminutos envelopes as notas de encomenda que enviava à Vieira Araújo Lda., em S. João da Madeira (fábrica dos lápis VIARCO, dos chapéus Águia, etc.). Era pequeno mas tenho ideia de fazer com muito entusiasmo a viagem ao fundo da rua, eu e o meu irmão, no carro do meu pai, sem cinto e muitas vezes sentados ou de pé à frente, sem sairmos do carro, um de nós se esticava o mais que podia, e fazendo dos bracitos pequenos grandes, metiamos o envelope no marco do correio. Uma distância curta, ir e voltar eram uns 500 metros (?), e se fosse ao domingo de manhã, enquanto a minha mãe preparava o almoço, depois iamos até um jardim à beira rio (se tivessemos sorte até ao jardim no Fluvial, brincar com os canhões que ainda por lá andam...).
Este marco já não existe, toda a zona foi reconfigurada, a Estrada da Circunvalação hoje tem outro formato e trajecto nesta zona, fica um pouco mais para baixo e, não tenho desde então grande ideia de histórias que pudesse contar de outros marcos de correio, e de outras correspondências do meu pai ou até minhas. Na idade destas coisas, a adolescência, senti de facto algum entusiasmo, ou interesse, em me corresponder se bem que, não tendo grandes possibilidades de o fazer, face sobretudo à inexistência de uma mesada que me permitisse mais que o dinheiro do transporte ou para uma sandes ou um croissant no bar da escola, ou uma “brouínha” na Douro (confeitaria na Corujeira, frente ao matadouro), via os meus colegas de liceu colecionarem “pen pals” de diferentes paragens, conhecendo dessa forma outras realidades, e praticando as línguas que aprendiamos, mais do que nas aulas, inglês e o francês, sobretudo. Uma espécie de rede social, não da idade da pedra, mas do papel  e da caneta e dos selos do correio. Só muito mais tarde fiz algo no género, por diversas outras razões, conheci pessoas, locais, correspondendo-me por carta.  Sendo para mim curioso de corresponder com uma espécie de “pen pal” de modelismo, o Sergej Klimov, de Krasnodar (na actual Geórgia), e ainda, no seguimento de um trabalho que fiz sobre aviação, refira-se também um curioso envelope que recebi do Paquistão  ... [http://www.passarodeferro.com/2015/01/o-alouette-iii-no-paquistao-m1777.html].
Ainda hoje mantenho algumas tradições escrevinhatórias, muito poucas, uma delas em especial, a de enviar umas mãos cheias de postais de Boas Festas. Parece-me uma boa tradição para a qual preciso, ainda de um marco do correio, não que faça questão.
Numa postagem muito curiosa que encontrei nas redes sociais, em que falava exactamente disso,  das redes sociais, opondo, de certa forma as redes sociais de hoje às do antigamente, das cartas escritas com letra certinha, altura em que “seguiamos” alguém por carta e com tanto afinco que quase não respiravamos entre cartas, e ia-mos dormir para a porta de casa para estarmos mais perto da caixa do correio na ânsia de mais uma missiva, dois interfaces físicos  deste “messenger”, marco do correio (INPUT) e caixa do correio lá de casa (OUTPUT), a comunicação demorava alguns dias, mas bem vistas as coisas até era pouco, curtinho até, mas que a ânsia que vai da distância entre a carta que enviamos à resposta recebida fazia alongar.
Hoje em dia seriamos todos considerados retrogrados se ainda escrevessemos à mão cartas para enviarmos às pessoas que nos “seguem”, remetendo-as pelo correio, num envelope com um selo colado com saliva...

Adiante. Estações e marcos do correio foram sendo obliterados da nossa cidade pelo camartelo do costume, o progresso, o camartelo da automatização, da despersonalização das tarefas de correspondência, mas sobretudo, desde o advento da internet, e dos telemóveis sofisticados que servem para tudo menos falar ao telemóvel, a comunicação deixou de ser postal, passando a instantânea, as pessoas escrevem cada vez menos cartas ... confesso que parte é culpa minha, eu próprio deixei de escrever ... Por volta da altura em que escrevia estas linhas, ia eu a passar frente ao Matadouro, lembrei-me do marco que havia ali quase em frente, na esquina do passeio onde ficava o consultório do Dr. Maurício (Dr. Maurício Esteves Pereira Pinto), que ficava por cima da farmácia. Acho que usei este marco algumas vezes, mas como tantos outros, foi retirado.

A presente postagem tem que ver, não com a correspondência, mas antes com a partilha de fotos de alguns dos marcos do correio que podemos (à data) ainda encontrar na cidade do Porto.
Pelo que julgo saber, e sem grandes pesquisas, os marcos do correio metálicos na via pública foram introduzidos em Portugal em 1811, imagino eu que no Porto também por volta dessa altura. A origem dos primeiros marcos copia o modelo inglês, e não só os copia como os primeiros eram mesmo ingleses, adquiridos ao Royal Mail (acho), em alguns dos quais ainda encontramos nos dias de hoje. Mais tarde foram implementados marcos maiores, cilindricos, existindo bastantes de diferentes modelos e origens, tanto nacionais como estrangeiros.
Pela literatura que consultei, os wallboxes são posteriores aos pillarboxes, e não o contrário, pelo que admito que em Portugal tenham sido introduzidos na mesma sequência.

Marcos de correio em paredes (wallboxes)

Os marcos em  paredes talvez sejam dos primeiros, desde logo por os seus números serem os mais baixos, muitos destes apresentam ainda hoje, a coroa britânica por cima da abertura, a denotar a sua origem inglesa. Alguns destes foi retirada parte deste símbolo, mas ainda se consegue ver na maioria.
É possível que, ao longo do tempo, alguns destes marcos, possam ter sido modificados, ou substituídos, e retirados também, mas não pretendo que este trabalho seja demasiado exaustivo.



1 – Rua João de Oliveira Ramos ( frente ao nº104 / ao lado da BIAL)
Fabricante: W.T. Allen & Co. Ltd., London
Este fabricante só começou a fabricar wallboxes para os correios ingleses a partir de 1881, no reinado da Raínha Victoria, pelo que se supõe que esta seja contemporânea.



2 A – esquina da Rua Padre António Vieira com a Rua do Freixo.


24A –Rua Antero de Quental, entre os nos.37 e 39.
Apresenta uns dizeres gravados na pala por cima da abertura, mas não consegui perceber a origem.

39A - Rua S. Vitor
Apresenta uns dizeres gravados na pala por cima da abertura, possivelmente o nome do fabricante, mas não consegui perceber.

43A – Rua Álvaro Castelões (quase a chegar a Costa Cabral).

 
49A - Rua do Meiral 48-46 (em S. Pedro de Azevedo)


52A - Rua de Bonjóia 662 (retirado após 2008)


 126 – Rua das Flores, entre os números 82 e 84.
Apresenta vestígios da coroa inglesa acima da abertura.




127 – Rua do Moreira (nº161)
Apresenta vestígios da coroa inglesa acima da abertura.

273 -
Apresenta vestígios da coroa inglesa acima da abertura.


 
274 – Rua Trindade Coelho nº 37.
Apresenta vestígios da coroa inglesa acima da abertura.

275 - Na Rua de Miguel Bombarda (junto à Rua de Cedofeita). É um dos que mais gosto porque foi com este que comecei a formular a ideia deste tema, já que me chamou à atenção a coroa em cima da abertura. Este é o que apresenta ainda a coroa britânica mais completa e, por semelhança, poderá ser um modelo de wallbox do periodo do rei Eduardo VII (> 1901).


 

280 - no cruzamento da Rua de Costa Cabral com a Rua Dr. Júlio de Matos.
Muito apagado mas, com a incidência de luz correcta ainda se percebe onde estava a coroa britânica acima da pala.



297 - Ao fundo da Rua de Horácio Lima.


 

298 - Avenida Rodrigues de Freitas 184



309 - No Largo da Fontinha (entre o nº8 e 9)
Apresenta vestígios da coroa inglesa acima da abertura.


---

Marcos de correio do modelo pilar (pillar boxes)

Agradecimentos: Lexi (pela localização do 297 e 280)

Bibliografia

Old Letter Boxes, by Martin Robinson, f.p. 1987